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A biblioteca da dona Idalina
São Paulo, 14 de maio de 2010, sexta-feira.

Como uma biblioteca particular é desfeita, e de maneira rápida.

Dona Idalina era uma simpática professora aposentada e nossa vizinha. Morava em uma casa própria, um amplo sobrado geminado, com o seu filho excepcional, de cerca de 40 anos. Ela mesma, já era uma senhora de idade avançada, com os seus 80 anos ou mais. Tinha outros filhos, que estavam bem encaminhados na vida. Sendo que um reside lá na França.

Um belo dia, talvez devido à idade, cismou-se que a empregada estava roubando algo da sua casa. Em decorrência disso, trocou-se de empregada várias vezes (ao que parece). E chegou a acreditar que alguém tinha entrado na residência. Não bastasse essa paranóia, possivelmente sentiu-se solitária, ainda que vivendo com o filho. Por fim, decidiu morar na casa da nora, porque segundo ela, era uma pessoa muito amável e simpática. Alguém aconselhou a não fazer isso, porque as boas relações ocorrem desde que você não se envolva com as privacidades dos outros, que sempre são questões delicadas. Afinal ela já dispõe do seu lugar, não precisando incomodar a ninguém. E eventualmente recebia as visitas dos seus filhos... Mesmo assim, insistiu, decidida em morar com a nora (e acompanhado do seu filho excepcional).

Passado um certo tempo, dona Idalina sofreu uma fratura no fêmur, devido a certas circunstâncias, possivelmente provocadas pelo uso excessivo de antidepressivos, o que provavelmente deixou-a em um suposto estado de dormência. Passou mais um pouco, o quadro dela se complica, e teve de ser internada no hospital. E por fim, faleceu. Aquele sobrado então, ficou por um bom tempo fechado, desabitado. Até que um dia...

Certa manhã, alguém exclamou: “Olha o que estão fazendo com os livros da dona Idalina!” Em um instante, vi o catador de papel carregando um saco cheio de livros, a atravessar a avenida, para chegar no viaduto que se encontra no outro lado. Um dos livros cai estatelado no chão, e um carro “fulmina-o” em alta velocidade. Imediatamente fui na casa da falecida vizinha, para saber o que estava acontecendo. Simplesmente seus parentes estavam tirando os livros do estante, e literalmente jogando-os no chão, onde o catador recolhia e colocava nos seus sacos. Estavam desfazendo a biblioteca particular da falecida professora aposentada.

Confesso que só estive uma vez dentro daquela casa, e nunca tinha reparado bem o estante de livros, que ocupava toda uma parede da sala. Mas no final das contas, deu para encher, creio eu, três ou quatro enormes sacos, e cheios, todos de presente para o catador. Imediatamente tentei salvar o possível do impossível: “Posso pegar os livros?”, perguntei para um dos responsáveis. Como a resposta foi positiva, tratei logo de recolher o que podia. Pelo menos toda as obras de Gilberto Freire (Coleção Documentos Brasileiros - Livraria José Olympio Editora, 1950, 10 vols., encadernados em capa dura, azul marinho) e o Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau, de uma coleção de não sei quantos volumes (Editora Cultura, 1944. Série Sociológica, vol. 4. Organizado por José Pérez. Trad. de B. L. Viana. 330 p., capa dura, tecido vermelho). Além desses, um dicionário e uma enciclopédia de francês, e alguns outros volumes.

Estava indo muito bem, e teoricamente podia recolher todos os livros. Exceto a presença do catador com os seus gestos bruscos, no ato de recolher o material, e sinalizando um possível início a uma alta dialética entre nós dois, e que não seria lá nada agradável. Eu já conhecia o sujeito, de vista, uma vez que morava debaixo do viaduto. Local este que já teve pelo menos oito homicídios não esclarecidos pela polícia, frutos de brigas entre os sem-tetos. E a primeira vez que vi esse tipo de dialética foi entre um estudante universitário e o motorista de um ônibus já estressado por um dia exaustivo de trabalho... E que finalizou com um praxis. O problema não são os níveis discursivos, e sim, o praxis. Deixei, então, o sujeito a terminar o serviço.

Mas de imediato liguei para a dona Maristela (da Livraria Calil), afim de comprar esses livros. Só que, segundo ela, ao chegar no local, debaixo do viaduto, não encontrou nenhum obra. O meu problema é que não tenho um raciocínio rápido: Podia negociar com o catador de papel o valor dos livros. Afinal, se ele for vender para a reciclagem de papéis, iria receber pouco. E creio que dificilmente encontraria um sebo nas proximidades. Igualmente receberia pouco pelo material. Mas na ocasião, eu não dispunha de meios para pagar por todos esses livros. Mesmo assim, poderia tentar negociar, o que não fiz.


A conclusão de tudo isso

Esse drama foi apenas um, dentre outros que presenciei, mostrando o seguinte:

  • Por uma razão qualquer, optamos em criar uma biblioteca pessoal, e que satisfaria as nossas exigências. Essa biblioteca inevitavelmente ocuparia um espaço que somente é compreensível e valorizado por nós mesmo. Dificilmente alguém teria essa mesma compreensão e valorização.
  • Além das traças e cupins, os parentes podem tornar-se o maior inimigo das nossas bibliotecas (se não piores do que esses insetos). Isso também depende das condições e da posição que tomamos. Portanto, a vida de uma biblioteca particular é, em geral, a vida do seu dono. Morreu este, aquele possivelmente terá o mesmo fim.
  • Tentar desfazer-se de uma biblioteca por conta própria pode ser a pior opção: Seu preço é bem aviltante. Salvo você disponha de obras realmente raras, e disputadas por várias instituições ou pessoas com grande poder aquisitivo. Um valioso acervo museológico. Quem ganha com a venda de bibliotecas são os sebeiros. Pois, eles compram lotes de livros a preços realmente vantajosos, mas para eles.
  • Doações para outras bibliotecas não são necessariamente boas idéias: Todas elas tem suas políticas específicas, em relação com seus acervos. Mesmo nas bibliotecas universitárias, livros bons não significam que vão ficar nos estantes. Entram vários fatores: Espaços para o acervo, finalidades, prioridades, verbas etc.
O ideal seria as bibliotecas públicas, onde seus acervos jamais sejam desfeitos ou transferidos para outros lugares. Que sempre entrasse novas aquisições, e sem restrições. Mesmos os livros em precárias condições, seriam efetivamente restauradas ou digitalizadas e reimpressas. E que não existissem vandalismos nas obras. Enfim, onde todos possam encontrar as informações impressas e manuscritas lá. Mas tudo isso é utopia. Pelo menos nos países do Terceiro Mundo.

Aqui em São Paulo, por exemplo, a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, serve apenas como palanque para certos políticos. Suas reformas e (grandes) manutenções se restringem apenas nas aparências e algumas inovações, como o acesso à Internet. O essencial não é feito: Precisa-se, por exemplo, de mais funcionários, e principalmente de documentaristas, que não são bibliotecários. Suas funções são bem distintas. Mas vocês podem esperar por séculos, que isso não vai acontecer. Mais adiante, em outros posts, darei mais detalhes sobre essas questões, apresentadas aqui.



Comentários feitos
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20/07/2010 - 01:16 - Douglas Carrara - Prezado Antonio Carlos,

Fiquei sensibilizado com seu texto, não só porque passo pelo mesmo drama, como também porque fico penalizado pela situação de penúria da cultura deste país tão rico e tão pobre de pessoas e políticos que preservem de verdade a cultura. Apesar de reconhecer que é verdade, fico profundamente triste e melancólico que nosso esforço individual de preservar livros que somente nós valorizamos e que consideramos um tesouro, mas ninguém realmente pensa assim. Vivo em comunhão com meus 6.500 livros. Sou professor e os livros e seus autores tem sido muito úteis para mim. Como já tenho 67 anos, tentei recentemente vender todo o acervo com cláusula de entrega do patrimônio post mortem e não consegui nem mesmo uma resposta decente da instituição universitária que tentei. Enviei toda a relação dos livros, eles aparentemente se interessaram, mas diante da cláusula post-mortem, parece que estava muito acima da visão deles. Como o site da biblioteca tem sido muito visitado gostaria de publicar o seu texto que está bom demais.

um grande abraço

Prof. Douglas Carrara

Biblioteca Chico Mendes
http://www.bchicomendes.com
Caixa Postal 114.010
Maricá - RJ 24900-970
Brasil - Tel.: 55 (21) 2638-5160
Coordenação: Prof. Douglas Carrara
douglascarrara@bchicomendes.com

23/07/2010 - Zadoque - Prezado Douglas,

Não há problema, você pode publicar o texto no site da Biblioteca Chico Mendes. Apenas peço que indique a fonte.

22/07/2010 - 14:38 - Raissa - Meu esposo possui uma biblioteca rica em assuntos de grande valia para a humanidade, tanto na cultura como na área médica, sempre preservando a natureza e os tratamentos naturais. Antropólogo e pesquisador de Plantas Medicinais. Coleciona essa vasta obra há mais de quarenta anos com um acervo de mais de cinco mil livros. Gostaria muito de ter algum apoio de alguma instituição ou de alguém que tenha idéias parecidas que pudésse se unir a nós para montar uma grande biblioteca ou um grande centro de pesquisas para beneficiar estudantes, professores, médicos alternativos e quem mais pudesse se utilizar desse trabalho e acervo, enfim.... para que meu marido possa ter o prazer de dar continuidade a este trabalho em vida e sabendo que quando morrer sua biblioteca e seu ideal não foi em vão e até mesmo eu poder dar seguimento a esse trabalho, já que sozinha seria quase impossível. Ficaria sem saber o que fazer com um material e um acervo tão sério e importante, mas que apenas seu idealizador o fez sozinho com apenas pouquíssimos colaboradores durante todos esses anos de sua pesquisa e o meu apoio. Sua tristeza é pensar que tudo isso morrerá junto com ele, mas não pretendo deixar isso acontecer, porém sem apoio com certeza será muito difícil encontrar uma solução para que toda essa obra tenha o seu lugar de direito.

02/02/2011 - 15:04 - Luiz Roberto Fontes - O seu texto, relativo a um caso particular, expressa uma realidade triste em nosso país. Já localizei, em sebos, livros com carimbos ou identificação de bibliotecas variadas (públicas, escolas, igrejas, particulares). Provavelmente eram acervos temáticos completos e construídos no curso de décadas, agora extintos, com destino ao lixo ou sebos. Material precioso, não no valor financeiro, mas indispensável à cultura geral, à história e à ciência.

Mesmo bibliotecas universitárias não preservam adequadamente o seu próprio acervo ou desfazem-se de coleções consideradas obsoletas, por conta da modernidade das publicações digitais. É moda assinar digitalmente um periódico, sem que se gravem os volumes (pdf) para consulta futura. Já vi, na USP, uma obra de referência ser doada por ocupar muito espaço e existir on-line (acesso somente permitido mediante assinatura anual, é claro).

Bibliotecas universitárias e públicas também não recebem doações indistintamente, por falta de condições de processar e de espaço físico para armazenar o material.

Na contra-mão de tudo isso, ao menos há algumas bibliotecas digitais que disponibilizam livremente material raro ou antigo, como Internet Archive (www.archive.org) e Biodiversity Library (www.biodiversitylibrary.org), com possibilidade de se consultar e obter volumes ou coleções inteiras em formato pdf.

De um lado o progresso e suas virtudes, do outro, a perda de acervos e da memória nacional.

Um abraço do

Luiz Roberto Fontes

10/04/2011 - Zadoque - Roberto, valiosas informações essas que você deu (as bibliotecas). Peço as desculpas por não ter te respondido antes. Pois, tinha esquecido. Mas está aí, e valeu!

08/08/2011 - 22:17 - (anônimo) - Zadoque se você oferece 30 reais ao catador ele iria deixar os livros pra você, o quilo do papel é 15 centavos nos melhores ferro velhos!

09/08/2011 - Zadoque - Valiosas informações! Eu não tinha a idéia de quanto sairia para um catador de papel na época. É uma pena! Pois, já foi!

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