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Minha biblioteca pessoal e a paixão pela Ciência
São Paulo, 18 de julho de 2011, segunda-feira
Revisão feita em 1º de agosto de 2011.
Revisão em 22 de fevereiro de 2014.

Sempre tive uma certa empatia com os livros. Isto é, excetuando os primeiros anos da minha alfabetização, quando eu rabiscava e desenhavam nas suas margens, além dos cadernos. Esses rabiscos e desenhos na verdade mostravam as minhas perspectivas como artista. E destes, sobraram apenas dois exemplares, e que os guardo com carinho e recordação especial. Mas voltando à minha bibliofilia propriamente dito, eu segui um caminho um pouco diferente:

Foi numa noite na escola, quando eu fazia o ginásio no Ênnio Voss, e que fica na zona sul da cidade de São Paulo. No meio da baderna usual da minha turma (que sempre ocorria quando não haviam as aulas), decidi sair da sala para andar pelos corredores da escola.

Justamente em um destes, faltava a luz, devido a um problema elétrico. Estava escuro. Mas tinha uma sala iluminada, e de porta aberta. Por curiosidade aproximei-me dela. Foi quando descobri tratar-se de uma biblioteca.

Era o final de 60. Precisamente em 69, creio eu, quando Neil Armstrong pisou na Lua. Aquilo foi fantástico para mim. E entre outras, eu chegava a projetar e montar pequenos foguetes. Isto é, comecei com a “pólvora” feita com cabeças de palitos de fósforos. E depois, a pólvora negra mesmo, misturando os ingredientes químicos. Cheguei a fazer até a réplica em gesso da cápsula Mercury (que levou o primeiro americano à órbita terrestre). Mais ou menos naquela época, estava vendendo nas bancas de jornais, os primeiros fascículos da Ciência Ilustrada, uma enciclopédia de vários volumes, publicada pela Editora Abril. Tentei fazer a coleção, mas não deu certo. Foi nesse contexto que comecei a enamorar-me com a Ciência. Mas aquela ciência segundo a minha visão do começo da adolescência.

Mas voltando à biblioteca, entrei na sala, e entre uma mistura de curiosidade e fascinação, começei a pesquisar os livros. Eu não sei se foi pela sugestão da bibliotecária, mas a minha atenção voltou-se para a Coleção Enciclopédia Juvenil, e que tinha em um estante pequeno e de poucas pratelerias. Como ela disse que eu podia levar alguns exemplares para ler em casa, então decidi fazer isso. Havia vários títulos, entre eles: A eletricidade (nº6), Foguetes e Jatos (nº7), Rádio e Televisão (nº12), Satélites e naves espaciais (nº 21) e Computadores (nº29). Foram os que me interessavam, e que acabei lendo-os com o tempo.

Não sei se eu tinha levado o Foguetes e Jatos, mas o que me lembro bem, é que entre os dois primeiros livros, estava lá a Eletricidade. Voltei para a sala de aula, contente, é claro. Evidentemente que em pouco tempo eu já estava bastante inteirado com a Ciência como matéria da escola. E os resultados das notas mostraram-se bons. Na época, os livros adotados começaram com a Iniciação à Ciência (primeiro ano), e a Iniciação Científica (os demais anos do ginásio).


O primeiro volume (à direita) foi adquirido em um sebo, bem mais tarde.
Os demais, foram encadernados por mim.

Mas esses livros, diferentemente os de hoje, tinham um grande diferencial: Apresentavam experiências científicas, em que um aluno de ensino básico e médio poderia fazer. E não eram poucas. Com isso, pude pegar o gosto por tal, não mais como uma forma de matéria obrigatória,e sim, já como entretenimento e reflexão.



Alguns experimentos em que o aluno podia fazer.

Quando entrei na sala com os dois livros, os colegas começaram a me ver de maneira estranha! Apelidos eu já recebia de todos os tipos, mas o abominável “Cientista maluco” (ou louco) pegou com o tempo. Em uma outra ocasião (outra turma, creio eu), o pessoal sofisticou, e chegaram a me apelidar de Baby Enciclopaedia...

Em pouco tempo, a coisa evoluiu-se, e eu já estava lendo as coleções Time-Life, tratando de assuntos como: Astronomia, os planetas, biologia, os cientistas, matemática etc. Eu cabulava as aulas (fugindo das responsabilidades da escola), e mergulhava lá mesmo, na biblioteca desta. Até que um dia fui surpreendido pela minha professora de inglês, a Cordélia Canabrava Arruda, e dentro da biblioteca. Acho que ela percebeu que eu estava cabulando... não sei. Mais tarde (bem mais tarde mesmo), descobri que ela, além de professora de inglês, trabalhou como tradutora de vários livros e é também uma pianista. Isto ao ouvir um recital dela na Cultura FM.

Desde então, para não ser surpreendido por ninguém, comecei a freqüentar as bibliotecas públicas: A de Mário de Andrade, e a outrora Biblioteca J. F. Kennedy (atual Pref. Prestes Maia - Av. João Dias, 822), e que fica lá em Sto. Amaro. A esta altura, eu já estava pegando os livros de física mesmo; além de química, astronomia, astronáutica, astrofísica etc. Não pensem que sou expert nesses assuntos. Não sou não. Apenas era uma forma bem pessoal de abordar os conhecimentos, na medida do possível. Porque a educação pela Ciência (na verdade, conhecimento em geral), não se faz de maneira imediata e fácil. Muitas vezes fazemos as coisas pelo nosso modo de vê-las. Leva um certo tempo para os amadurecimentos.

Nessa última biblioteca (a outrora Kennedy), cheguei a acessar os primeiros andares. Não era permitido, mas na época, creio não ter visto uma placa de proibição. E numa enorme sala, bem iluminada, pude vislumbrar coleções inteiras de periódicos raros. Entre elas, as de revistas Ciência Ilustrada (não se trata da citada enciclopédia). Essas revistas, das décadas de 20 e 30, creio eu, tinham experiências e montagens que um leigo interessado podia fazer. E eu estava atrás de experiências científicas do meu interesse.

Com o tempo, acabei ficando sócio de várias bibliotecas. Inicialmente comecei com as duas: A circulante da Mário de Andrade, e que ficava na Praça Roosevelt; e a da Kennedy. E depois, tornei-me sócio da biblioteca da SESI/FIESP (Av. Paulista, 1313... não existe mais). Além de duas bibliotecas da faculdade de Letras (eu já estava na faculdade então). Ao total, cheguei a tornar-me sócio de 5 bibliotecas públicas e universitárias. E a essa altura, eu comecei a perceber um certo problema com os acervos dos livros dessas: Além das mutilações em determinadas obras, alguns exemplares simplesmente sumiram das prateleiras. E eu esperando para que o suposto leitor a devolvesse. Nada. Roubaram os livros? Talvez seja este um dos motivos pelo qual criei a minha biblioteca pessoal. Nessa altura eu já tinha alguns livros. Só precisava aumentar o acervo.

Mas antes, no meu tempo de ginásio, e até no colegial, eu pegava os livros emprestados e chegava a lê-los em praças públicas e arborizadas. Aquelas que fossem pequenas, e que ninguém me incomodava. As vezes eu interrompia as leituras, e faziam os meus esboços das praças, a lápis. Foram poucos os livros lidos. Talvez entre os que tentei lê-los por completo, esteja a obra E a luz se fez - Romance de astronomia, de Rudolf Thiel (2ª ed., São Paulo, Melhoramentos, s.d., 399 pág. ilust.) Mas com o tempo, vi que é bem mais confortável fazer as leituras nas bibliotecas mesmo, ou em casa.

Aconteceu de um dia de eu ter esquecido de devolver dois exemplares para a biblioteca circulante da Mário de Andrade. E só descobri estes no meio dos meus livros, meses depois. A história foi tão impressionante... Isto é, a minha explicação dada, que a bibliotecária simplesmente me perdoou. Foi a partir daí que vi que era perigoso ficar com livros de várias bibliotecas nas mãos. Mais um motivo para montar a minha biblioteca particular. E a já dispunha de uma pequena lista de sebos, para fazer as primeiras aquisições.

Mas esse caso de esquecer de devolver os livros não foi o primeiro: Já aconteceu de eu ter “esquecido” de devolver o exemplar Computadores (nº 29 da Coleção Enciclopédia Juvenil) para a escola durante anos. É que ele tinha sido molhado, sem querer, com uma solução de ácido sulfúrico, durante as minhas experiências de química, e que eu fazia em casa. E com o tempo, as folhas ficaram esfarelando aos poucos. Isso quando eu fazia o ginásio. Somente bem depois é que decidi adquirir um outro exemplar, novo, e tentar explicar para o funcionário da escola o ocorrido. É que passaram-se tanto tempo que a bibliotecária já era outra, e que não me conhecia. Ninguém reclamou da falta do livro. Ninguém me cobrou nada. Foi o peso da consciência mesmo.


A minha ciência

A aquisição de um pensamento científico, e dentro dos parâmetros do que seja a Ciência, requer certos conhecimentos e posturas adotadas. Na verdade, não foi o meu caso durante muito tempo. Naquela época, quando eu era adolescente, o meu mundo era bem pessoal. Como a de todos os adolescentes. Acabara de acontecer a Contracultura, e os avanços da corrida espacial estavam misturados igualmente com o avanço do esoterismo.

Não sei como foi antes da minha época. Mas a minha busca na verdade não era exatamente a da Ciência, e sim, a da minha visão da Ciência. E os meus livros - as que eu lia e adquiria - eram uma mistura de Ciência, ficção científica, técnicas, artes plásticas, esoterismo/ecultismo etc. Entre os livros de física e de química, entravam os do tipo “Eram os deuses astronautas?” de Eric von Däniken; ou os livros de Lobsan Rampa, Éliphas Spencer Lewis etc.

No final da década de 60 para 70, eu assistia o seriado Jornadas nas Estrelas. Era a minha paixão. Mesmo quando o horário mudou-se para madrugada adentro, fiz a questão de continuar assistindo-o, ligando o televisor Admiral valvulado e em preto e branco, e na calada da noite. E me entregava aos delírios como a de projetar as naves espaciais, e que pudessem aproximar ou superar a velocidade da luz. Projetos humanamente impossíveis, porque, entre outras, pensava eu sozinho a realizá-los. Talvez seja por isso que acabou me incentivando mais em desenhos e ilustrações, onde as realidades impossíveis possam ser concretizadas.

Eu lia muitos livros de ficção científica, sejam de Isaac Asimov, Arthur A. Clarke, como de outros autores. E juntando nessa “mistura” com os livros de Ciência e de esoterismo, tinha os meus oráculos: As cartas de Tarot, o pêndulo, a quiromancia e o I Ching. É mole?

Essa inclinação para o lado esotérico e oculto só terminou quando me converti a Cristo. Isto é, quando tornei-me em um crente evangélico. Isso foi em 79. Desde então, a minha visão do mundo expandiu-se, e bem mais, dentro das áreas de artes e ciências. A visão de um crente na verdade enriquece, porque nada se perde da experiência anterior. Apenas explica e esclarece mais. Pouco tempo depois, iniciei a minha carreira em artes, como desenhista de histórias em quadrinhos.

Somente quando entrei na faculdade é que comecei a me interessar no método científico. Mesmo assim, apesar de ser uma matéria obrigatória para a formação acadêmica, tive a impressão de que não era dada muita atenção nela, principalmente nos cursos de Ciências Humanas. Eu tive de ir atrás, o que me fez pesquisar em vários livros. Apesar disso, o método só veio depois, porque concentrei-me nas técnicas de fichamentos e arquivamentos de informações, além dos levantamentos bibliográficos.

Na minha opinião, o método científico, e seus procedimentos para fazer as descobertas, deveria ser ensinado bem antes: Talvez no começo do ensino médio. E juntamente com aulas de filosofia. Infelizmente só tive uma aula dessa. Não me lembro se foi no final do ginásio ou no colegial.

Foi nessa época de faculdade, especificamente quando eu estava fazendo as Ciências Sociais, é que tivemos como matéria de antropologia, um filme entitulado de Os livros de Próspero (Prospero’s Books) de Peter Greenway, lançado em 1991, e que foi inspirado em A última tempestade de William Shakespeare. Os meus colegas (a maioria absoluta) não entenderam nada. Acharam que era um filme sem pé e nem cabeça. Mas para mim, era perfeitamente compreensível, porque me identificava com o personagem do filme. É que tratava-se da visão do homem renascentista. Isto é, entre o período em que predominava o pensamento mítico e o nascimento da Ciência tal como a conhecemos hoje. Nesse período, era comum a mistura da Ciência com o esoterismo.


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