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Criadouro de mosquitos a poucos metros da Prefeitura de São Paulo
São Paulo, 22 de maio de 2008.
Revisão e atualização feita em 30/nov/2013,
e com o acréscimo de novas imagens.

O “defecorium” na outrora base comunitária da Guarda Metropolitana

Desde julho do ano passado, quando passava no Vale do Anhangabaú, reparei numa situação inconcebível para uma grande cidade como São Paulo: O uso do que era uma outrora pequena e bonita cortina-de-água, como banheiro improvisado, pelos sem-tetos. Essa cortina-de-água ficava diante de uma base da Guarda Metropolitana de São Paulo, e que foi criada durante a reforma urbanística do Vale do Anhangabaú.

No local, além da base, haviam dois banheiros públicos, tanto o masculino como o feminino. Apenas permaneceu o banheiro masculino, que era guardado por um rapaz. Nele, dois box (vasos sanitários) eram reservados para mulheres. Pelo o que eu saiba, nenhuma delas teria a coragem de entrar no local. E, para tornar a coisa ainda mais surreal, a poucos metros estavam instalados barracas de shows, para o entretenimento cultural das crianças, no período de férias escolares. Isto é, uma fileira de fezes humanas, a céu aberto, e a poucos metros de um espaço reservado para crianças, e a poucas centenas de metros da sede da Prefeitura. Mais adiante, caminhando em direção à Praça da Bandeira, encontram-se os mendigos espalhados e descançando nos gramados, misturados a pedestres e skatistas.





É bom lembrar que desde 2007, o então prefeito de São Paulo, o sr. Gilberto Kassab, fez a campanha da Cidade Limpa, onde obrigava os lojistas a retirarem os luminosos e painéis de suas lojas, e que estivessem fora do padrão. Diga-se de passagem, padrão estabelecido pela Prefeitura. Igualmente não escapavam os outdoors da cidade. A primeira pergunta que me veio na cabeça foi se isso era de fato necessário ou não. Quais seriam as prioridades da cidade? Creio que se essas leis fossem aplicadas em cidades como Nova York, Tóquio e principalmente Las Vegas, imediatamente seus prefeitos seriam destituidos dos respectivos cargos.



A renauguração do Correio Central e a maquiagem

Foi quando desci da Av. São João, em direção ao Vale do Anhangabaú, nesse dia 30 de janeiro, é que reparei no grande número de viaturas de polícia e de ambulâncias nas proximidades do prédio do Correio. Logo notei que o prédio estava de todo iluminado por dentro. Fiquei sabendo da renauguração, com a presença do então presidente Lula, do governado José Serra e do prefeito Kassab. Evidentemente que naquele momento já não estavam mais os três, mas permaneceu o clima de festa no lugar, e logo me veio, como num estalo, a idéia de fotografar esse ambiente para depois fazer o “fecho de ouro”, fotografando o “defecorium”.

Que nada! O lugar estava limpinho que você tinha de ver! Imediatamente pensei que, se era para seguir o esquema do “antes-e-depois”, então, deveria passar no local após alguns dias. Por casualidade, isso ocorreu quase duas semanas, no dia 13 de fevereiro, quando surpreendi um engenheiro, a serviço da Prefeitura, juntamente com um técnico, a fotografar o local. Na verdade, a base comunitária foi aberta, e pudemos verificar o horror que estava lá dentro: Uma mistura de detritos, lixos e fezes humanas. O engenheiro, cujo nome não perguntei, aconselhou-me a não entrar, devido ao forte cheiro. Ele mesmo, munido de uma câmera digital em uma mão para fazer os registros, e a outra tampando o nariz, se aventurou para dentro do recinto, pisando no verdadeiro lamaçal de merd sujeira. Logo pensei que alguma providência vai ser tomada.



Fontes de águas paradas, em frente ao Correio Central

No mesmo dia e próximo ao local, constatei uma outra situação absurda: As águas estagnadas de uma fonte, mas no piso da avenida. A fonte, diga-se de passagem, é uma instalação de dezenas de metros, e que formaria uma piscina de água. Naquela ocasião, não somente estava tudo estagnado, cheio de sujeiras, tinha até uma camisa dentro da água, deixando evidente que a Prefeitura (ou seja lá quem for) não tomou nenhuma providência, e por muito tempo.



Ou seja: Enquanto as autoridades fazem as campanhas contra a Dengue, orientando a população a não deixar as garrafas e recipientes de água parada, a cobrir as caixas de água etc., a própria Prefeitura de São Paulo deixa talvez a maior criadouro de mosquitos do centro da capital a céu aberto. Isso desde fevereiro, se não bem antes, creio eu.



O banheiro público vira em um criadouro de pombos (pombal)

No dia 3 de maio passei no lugar, para ver o que a Prefeitura tinha feito. Entenda: Não é da minha intenção de ficar “fiscalizando” as autoridades. É que o local é de passagem quase que obrigatória para muita gente, e eu tinha de vir para a cidade. Constatei então, que toda a base comunitária fora emparedada com tijolos de cimento. Porém, a sujeira permanecia, como os mendigos que dormiam no local. Mas um fato inusitado me chamou a atenção: Havia um buraco na parte da entrada do que fora o banheiro dos homens. Aproximei-me então, para ver do que se tratava.



Para a minha surpresa, no meio de águas podres, papelão enxarcado e imundo, entravam e saiam os pombos daquele buraco. Fiquei com a câmera mirando no lugar, esperando pacientemente para flagrar um dos bichinhos no ato de entrar e de sair. Demorou um pouco para aproximar o primeiro “modelo”. Mas antes de entrar, ficou olhando para mim por uns dez segundos ou mais, creio eu. Quando comentei isso para um colega, ele respondeu brincando, dizendo que aquele pombo estava reclamando do seu direito ao uso da imagem. Isto é, eu teria de pagar-lhe um cachê para poder usar as fotos.





Na ocasião, tinham as garis varrendo aquele trecho, mas elas nada podiam fazer para limpar toda aquela imundície. Pois, era serviço próprio e direto da Prefeitura.



Um pequeno abrigo na fonte

Aproveitei, então, para ver o estado em que ficou aquele piscinão de água suja. Novo enquadramento foi feito, ao contornar a fonte, tendo como fundo, o prédio do Correio. Para isso, tive de adentrar-se



pelo gramado. Quando saí, conversei com um cidadão que levava o seu cachorro para o passeio, e ele me alertou de que era preciso tomar todo o cuidado para não deixar que o seu bicho de estimação se aproximasse do gramado. Pois, está cheio de carrapato, devido aos sem-tetos que dormiam no local. Isto é, uma praça pública tornou-se em risco para a saúde.

Enquanto eu estava prosseguindo na conversa, logo percebi uma outra cena inusitada: Um abrigo montado entre as palmeiras, e no meio daquela fonte. Talvez o protótipo de uma micro-favela a ser construída no lugar - a primeira sobre um vale, um viaduto, uma via, um túnel ou uma fonte - e da América Latina.



A última vez...

Já estava anoitecendo nesse dia 19 de maio, segunda-feira, quando decidi passar no local. Ainda no Largo São Francisco, notei um grande número de sem-tetos. De acordo com o porteiro de um prédio, geralmente à noite, pode ter mais de 300 indivíduos esperando a alimentação distribuído por entidades beneficientes. Peguei então a Rua Líbero Badaró, indo em direção à Avenida São João. Na Praça do Patriarca, são uns 10 sem-tetos ou mais dormindo sob o abrigo de um prédio. Pouco mais adiante fica o jornal Viva o Centro, que divulga, entre outras coisas, as ações construtivas da Prefeitura. Pelo o que eu saiba, nenhuma mídia publicou sobre o assunto abordado aqui.

Ao chegar na fonte desativada, vejo que o piscinão já estava quase seco. Daqui um pouco todos esquecerão do problema. Decidi não aproximar da base comunitária, pois, já estava escuro e tinham os sem-tetos dormindo lá.

Foram gastos verbas públicas (cujo valor não sei) para todo o projeto do Vale do Anhangabaú. Aquilo ali era para ser um cartão postal da cidade. As praças, as fontes, os banheiros públicos. Sabe-se que existem várias obras públicas, instalações, imóveis do governo e outras espalhadas pela cidade, e que estão literalmente abandonadas. Enquanto isso, novos projetos são aprovados. A Cracolândia é demolida para ser construída uma nova regional da Prefeitura ou centro cultural ou sei-lá-o-quê. É visível uma certa alienação entre aquilo que se pretende fazer, e a realidade prática que se encontra em volta.



Comentários feitos
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29/08/2008 - 20:55 - Marcela Rangel - O que me assusta é a prefeitura inaugurando novas praças, com a filosofia de cidade do interior, pela qual a praça tem de ter banheiro público e parquinho. São obras cosméticas, de fachada que terão certamente esse mesmo destino. Gostaria de saber quantos banheiros recem inaugurados já estão assim...

03/09/2008 - 23:22 - Zadoque - Foi uma boa idéia tocar no assunto. Na medida do possível, tentarei levantar as possíveis praças com essas características. Inicialmente estão sendo examinados os possíveis locais que tinham banheiros públicos: Estações de metrô, praças do centro da cidade etc.

05/07/2009 - 04:08 - Rafa - A prefeitura devia tomar atitude. Enves de ficar fechando nossas sebos e tirando o trabalho de quem precisa, devia contratar mais pessoas para fazer a limpeza desses locais. Além de dar a cidade um ar agradável ajudaria o desemprego na contratação de mais pessoas para limparem esses locais.

20/07/2009 - 14:21 - Zadoque - Rafa, você tem a razão: Eles, da Prefeitura, tiram o trabalho dos donos e responsáveis pelas bancas, e ao mesmo tempo, não contratam quem que precisa trabalhar. É um desserviço para a população em geral.



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